No princípio recusei tua presença,
como se negar bastasse para vencer.
Chamei-te ausência, erro, precipício,
e fechei as janelas contra teu nome.
Mas a noite possui uma paciência antiga,
dessas que desgastam pedra e convicção.
Chegaste sem ruído, quase ternura,
e pouco a pouco habitaste meus pensamentos.
Hoje já não ergo resistência.
Há em tua sombra uma estranha beleza,
um convite grave, quase magnético,
ao qual minha lucidez enfim cedeu.
Estou rendido ao teu escuro encanto,
enamorado daquilo que antes temia.
Pois há seduções que não prometem salvação,
apenas a doçura amarga da queda.