O frio penetra minha alma
como uma carta entregue tarde demais.
Ele me recorda, sem violência e sem piedade,
que nada sou além de um corpo atravessando corredores vazios.
As ruas continuam indiferentes.
As janelas permanecem acesas para outras vidas.
Ninguém deve nada a mim,
e talvez esta seja a única verdade sem máscara.
Carrego meus dias como quem empurra um processo infinito,
papéis inúteis diante de juízes invisíveis.
Há neve dentro dos pensamentos,
e até minhas lembranças parecem tossir de cansaço.
Quando a noite se aproxima das paredes do quarto,
escuto o mundo respirar sem minha presença.
Então compreendo, em silêncio absoluto,
que existir também é suportar a própria insignificância.