Por um instante meu olhar congela,
como se o mundo tivesse perdido o direito de existir.
Meu corpo paralisa diante da tarde vazia,
e até o vento parece esquecer seu caminho.
A tristeza domina meu semblante
com a precisão mecânica de uma sentença antiga.
Mas dentro de mim o pensamento corre febril,
feito ratos famintos atrás das paredes da razão.
Há um silêncio esmagando meus ombros,
e ainda assim mil vozes disputam meu crânio.
Recordações mordem como ferrugem na carne,
enquanto continuo imóvel diante do absurdo.
Talvez eu sorria amanhã por hábito,
como fazem os condenados antes do amanhecer.
Porque viver é isto: permanecer desperto,
mesmo quando a alma deseja tornar-se pedra.