Quantas vezes aquele olhar foi luz
num corredor úmido da minha consciência?
Eu caminhava entre paredes sem nome,
e teus olhos inventavam uma saída provisória.
Houve noites em que o mundo era absurdo,
um relógio enferrujado preso ao peito.
Mesmo assim, teu silêncio me encontrava,
como uma vela acesa diante do vazio.
Agora carrego tua lembrança comigo,
não como esperança, mas como condenação serena.
Certos olhares não partem quando partimos;
apenas aprendem a morar na sombra.
E quantas mais esse olhar irá me acompanhar?
Talvez até o último inverno da alma.
Porque há presenças que não salvam ninguém,
mas tornam a queda estranhamente humana.