Havia dias em que eu sorria
como quem fecha as cortinas de uma casa incendiada.
Ninguém via a fumaça nos meus olhos,
nem o silêncio apodrecendo atrás da minha voz.
Passei anos tentando esconder o vazio,
vestindo rotinas como um condenado veste uniforme.
Mas certas noites me atravessam sem piedade,
e descubro que não carrego o vazio — eu o sou.
As ruas continuam iguais, indiferentes,
os relógios seguem mastigando as horas sem culpa.
E eu caminho entre as pessoas
como uma sombra que aprendeu a imitar um homem.
Talvez exista algo cruel em continuar vivendo:
acordar todos os dias e sustentar o próprio peso invisível.
Ainda assim, permaneço aqui, respirando devagar,
feito um quarto abandonado que se recusa a cair.