Há uma maré escura dentro de mim,
sem lua, sem porto, sem razão.
Ela sobe em silêncio pelas veias
e transforma cada hora em outono.
As ruas permanecem as mesmas,
mas perderam o idioma da luz.
Caminho entre rostos e vitrines
como quem atravessa um sonho gasto.
Dizem que o tempo leva tudo.
Talvez. Mas algumas tristezas
aprendem a morar nos ossos
e chamam de lar a própria ausência.
Hoje sou apenas um homem à deriva,
observando o céu apagar-se devagar.
E a melancolia, paciente e antiga,
segura minha mão sem me libertar.