Guardo o tom da voz dela
como quem esconde uma chama no inverno.
As palavras já partiram,
mas o eco recusou-se a morrer.
Neste lugar onde os dias passam cegos,
sua voz ainda atravessa os corredores.
Não como lembrança,
mas como algo mais presente que o presente.
Há rostos, ruas e relógios,
todos ocupados em desaparecer.
Só aquela entonação permanece,
teimosa contra a erosão do tempo.
E às vezes penso que a perdi.
Então o silêncio se abre devagar
e dela resta o impossível:
uma voz viva em um mundo que envelhece.