Quando o som toca silencioso minha pele,
há um frio antigo atravessando os ossos,
como se o mundo tivesse encerrado seu expediente
e eu fosse o único a não receber o aviso.
As ruas continuam onde sempre estiveram,
mas carregam a ausência das próprias ruas;
cada passo parece ecoar num lugar vazio,
onde até as sombras esqueceram seus nomes.
Tudo me dá a impressão de estar morrendo:
a tarde, a fumaça, as palavras não ditas.
E eu, feito um erro repetido pelo destino,
permaneço respirando contra toda lógica.
Talvez viver seja apenas isto:
teimar diante da ruína sem promessa alguma,
guardar uma centelha inútil entre as mãos
e chamar de esperança aquilo que não se apaga.