No fundo deste poço sem estação,
a luz já não me visita pelo nome.
Aprendi a conversar com o silêncio
como quem aceita a própria fome.
Lá em cima, o mundo celebra verões,
risos atravessam o céu como pássaros.
Eu os observo sem pedir abrigo,
feliz apenas pela felicidade dos outros.
Há uma estranha paz em desistir do espelho,
em vestir a ausência como um velho casaco.
O coração esquece o próprio brilho,
mas ainda reconhece o brilho alheio.
Se um dia eu voltar a encontrar a manhã,
talvez nem saiba o que fazer com a claridade.
Por enquanto, sobrevivo neste abismo,
aprendendo a amar somente a felicidade alheia.