Seria utopia viver de poesia,
Sem vender a alma à pressa dos mortais?
Fazer do sonho a nossa moradia,
E desprezar os paraísos artificiais?
Seria utopia ao menos sonhar,
Quando o mundo nos ensina a desistir?
Há tantas formas de se aprisionar,
E tão poucas maneiras de existir.
Talvez sejamos ridículos sonhadores,
Dançando sozinhos sob a chuva fria;
Colecionando ausências e amores,
Como quem desafia a própria agonia.
Mas se a vida é absurda e passageira,
Se o amanhã não promete salvação,
Que eu faça dos versos minha trincheira,
E dos sonhos, minha última rebelião.