Aquele olhar sempre me volta,
Como um enigma que o tempo não desfez;
E, em minha alma, a noite se revolta,
Diante da beleza que eu julgava conhecer.
Há qualquer coisa de absurdo nessa lembrança,
Um rosto que persiste sem explicação;
Entre a lucidez, o desejo e a esperança,
Teu olhar desarruma minha concepção.
Talvez a beleza não more nas feições,
Mas no abismo que um instante pode abrir;
Naquilo que desperta antigas solidões,
E faz um coração esquecido ressurgir.
E quando o mundo novamente me aborrecer,
E a existência vestir seu cinza habitual,
Aquele olhar há de me surpreender,
Ressignificando o belo e o banal.