A melhor forma que encontrei de não sofrer,
Foi convencer o peito de que não sentia;
Vestir o cinismo, aprender a não querer,
E rir das coisas que por dentro me doíam.
Fiz da indiferença minha estranha armadura,
Um disfarce elegante, uma fria proteção;
Mas há silêncios que denunciam a fissura,
E noites que desmentem toda negação.
Que absurdo é desejar aquilo que se teme,
Querer um abraço e recuar da aproximação;
Sou réu de um coração que ainda geme,
Sob os escombros da minha própria contradição.
E se finjo não ter coração, quem sabe,
É porque senti demais o peso de existir;
Pois até a pedra, quando a noite a invade,
Guarda o frio de tudo o que não pôde impedir.